O Botânico da Universidade de Lisboa. Vozes, olhares, memoraçoes
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- - 01.03.2007 | 3 réactions | #link | rss

Árvore que os romanos consagraram a Júpiter, e de cuja folhagem se teceram as coroas dos heróis, árvore que ainda na Idade Média era objecto de culto – o carvalho – como os monumentos, as crenças, as religiões, sofreu no decorrer dos séculos os duros acasos do tempo e da fortuna.           Mais infeliz do que Júpiter, o omnipotente Deus mitológico, que com o raio fulminou os filhos de Titão, que acumularam montanhas sobre montanhas para o expulsar de céu; o carvalho não pôde resistir à ameaça da morte da multidão de inimigos que em sua volta surgiram no decorrer dos tempos.         Vítimas da evolução da humanidade, das necessidades sempre crescentes da vida moderna, substituídos por outras essências vindas de distantes países, ou atacados por misteriosas doenças que os levam a prematura decadência, os carvalhos de folha caduca vão a pouco e pouco rareando na flora europeia e perderam, neste momento já, a gloriosa importância de outróra.           E os carvalhos seculares, como as grandes jóias da arquitectura que mãos piedosas de artistas carinhosamente ergueram, pertencem ao passado. Se desaparecerem jamais se substituem, incompatíveis, como são, com o caminhar vertiginoso da hora presente. Joaquim Vieira Natividade. O Carvalho português nas matas do Vimeiro. 1929.

- - 01.02.2007 | 0 réactions | #link | rss

CPC - Há sempre alguém que resiste.

FC - [...] o Flávio Resende, que faria cem anos em 2006? Foi excepcional. E era militantemente optimista, sempre convicto de que se podem melhorar as coisas. Conhecia o Eça de cor e era raro o dia em que não o citava, a propósito do nosso modo caricato de ser, viver e estar. Foi atingido por aquela leva de purgas dos professores universitários que o Salazar fez em 47, e nunca baixou os braços. Muitos dos atingidos tinham, de facto, envolvimentos políticos. Este só tinha liberdade de pensar e dom da palavra, e nunca se levava muito à sério a não ser nas questões morais. Olhe, e tinha uma característica que deve ser mais cultivada: quando havia um artigo que era rejeitado ou uma publicação que era ridícula, ele dizia sempre que, de qualquer forma, era mais trabalho para os outros trabalharem. Ou seja, vivia a ciência como ela deve ser vivida, por acertos e erros.

CPC - O que é que o Professor admira mais nesses homens?

FC - Eram homens cultos. E preocupavam-se com o mal-estar físico dos pobres. Quando o Resende veio para o Jardim Botânico, em 1944, existiam 23 famílias a viver dentro do JB em casas degradadas, em condições miseráveis. Eram técnicos da faculdade que iam trazendo a família. Os jardineiros andavam de roupa remendada, praticamente descalços, de alpergatas rotas, e falavam com ele a medo, de olhos baixos e de chapéu na mão. Ele mandou logo comprar botas para toda a gente. Passados uns meses o encarregado veio queixar-se de que os jardineiros diziam que as botas estavam apertadas. E ele, logo: fantástico! Já são homens! Com melhores condições de vida já eram capazes de exigir, de refilar - isso é um homem. Quando nós vivemos no meio da chafurdice, deixamos de dar por isso.

CPC - Foi um privilégio tê-los conhecido pessoalmente?

FC - Tive a sorte de ter entrado e saído do curso pela mão do Serra e do Resende, e depois pela do Carlos Tavares. [...] O Resende nunca se meteu em política, mas, quando a minha contratação para assistente ficou bloqueada, acabou por ir à PIDE perguntar o que se passava. No meu ficheiro estava uma carta para o jornal "Novidades" a protestar não terem noticiado a recepção que o Papa fez a Nehru, e outra carta que tinha a ver com o meu grupo de católicos progressistas. Não sei o que é que ele fez, mas a situação resolveu-se logo. Fernando Catarino entrevistado por Clara Pinto Correia. 24 Horas, 13 de janeiro de 2007.

- - 09.01.2007 | 0 réactions | #link | rss

     No ano lectivo de 1978/79, quando comecei o curso de Biologia, as aulas ainda eram quase todas no Colégio dos Nobres e as praxes eram tão inteligentes quanto hilariantes.  Eu não conhecia ninguém, e os outros caloiros também andavam um bocado perdidos ali pelo portão.  Apareceram dois marmanjos de batas brancas que se apresentaram como assistentes do Prof. Fernando Catarino e nos arrastaram para o Jardim Botânico, lá mesmo para o meio, onde fica o lago grande em que nidificam os patos selvagens.  Nunca tinha entrado naquele santuário estupendo, e todas as árvores me sussuravam histórias novas, visões bravias e distâncias magníficas.  Explicaram-nos o fadário das duas Gingko biloba do Jardim: a fêmea está plantada mesmo em frente ao portão de cima, que dá para a Rua da Escola Politécnica, e o macho junto ao portão de baixo, que dá para o Parque Mayer.  Uma das nossas tarefas de caloiros era esfregar as mãos no tronco da árvore monumental de cima, para depois ir a correr com elas fechadas esfregá-las na árvore de baixo, coisa que  nos disseram que tinha que ser feita todos os dias e todas as tardes para os dois membros do casal separado não morrerem de solidão.  A seguir mandaram-nos mergulhar a todos no lago para recolher amostras do lodo do fundo que estaria a ser estudado por um génio australiano desconfiado de que ali existiam poderes medicinais, tarefa que nos foi explicado ser também da competência dos caloiros.  Do que eu me lembro, sobretudo, é disto -- de estar toda molhada, toda suja, no frio já cortante de fins de Outubro, a resplandecer por dentro de glória e de triunfo, porque, se já estava molhada e suja, então era porque já estava a ser bióloga.  Depois claro que os assistentes eram na realidade uns bacanos do terceiro ano metidos na Associação de Estudantes, chamados João Freitas e João Rôlo, mas a magia tinha começado.  Deste dia feliz às armadilhas de Drosophila que tínhamos que ir soltar dos bambus e esvaziar às seis da manhã durante o quarto ano nas práticas de Ecologia Evolutiva (e que belos charros se fumam nessa idade, ali na madrugada do Jardim, depois de concluído o trabalho!), foi sempre a subir.  Sempre no coração da floresta mágica, onde ficaram guardadas tantas joias bonitas das minhas memórias de estudante.  Clara Pinto Correia

- - 02.01.2007 | 0 réactions | #link | rss
- - 28.11.2006 | 0 réactions | #link | rss
E ora, all'improvviso, il novembre era già li presente, dalle finestre si sentivano stormire gli alberi dell'Orto botanico, si era alzato un vento maligno che fischiava nelle fessure e le foglie portate via dal vento passavano rapide davanti ai vetri. Notte, mare o distanza. L'angelo nero.
- - 05.11.2006 | 0 réactions | #link | rss

Foto de Lidia Marôpo

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