No ano lectivo de 1978/79, quando comecei o curso de Biologia, as aulas ainda eram quase todas no Colégio dos Nobres e as praxes eram tão inteligentes quanto hilariantes.  Eu não conhecia ninguém, e os outros caloiros também andavam um bocado perdidos ali pelo portão.  Apareceram dois marmanjos de batas brancas que se apresentaram como assistentes do Prof. Fernando Catarino e nos arrastaram para o Jardim Botânico, lá mesmo para o meio, onde fica o lago grande em que nidificam os patos selvagens.  Nunca tinha entrado naquele santuário estupendo, e todas as árvores me sussuravam histórias novas, visões bravias e distâncias magníficas.  Explicaram-nos o fadário das duas Gingko biloba do Jardim: a fêmea está plantada mesmo em frente ao portão de cima, que dá para a Rua da Escola Politécnica, e o macho junto ao portão de baixo, que dá para o Parque Mayer.  Uma das nossas tarefas de caloiros era esfregar as mãos no tronco da árvore monumental de cima, para depois ir a correr com elas fechadas esfregá-las na árvore de baixo, coisa que  nos disseram que tinha que ser feita todos os dias e todas as tardes para os dois membros do casal separado não morrerem de solidão.  A seguir mandaram-nos mergulhar a todos no lago para recolher amostras do lodo do fundo que estaria a ser estudado por um génio australiano desconfiado de que ali existiam poderes medicinais, tarefa que nos foi explicado ser também da competência dos caloiros.  Do que eu me lembro, sobretudo, é disto -- de estar toda molhada, toda suja, no frio já cortante de fins de Outubro, a resplandecer por dentro de glória e de triunfo, porque, se já estava molhada e suja, então era porque já estava a ser bióloga.  Depois claro que os assistentes eram na realidade uns bacanos do terceiro ano metidos na Associação de Estudantes, chamados João Freitas e João Rôlo, mas a magia tinha começado.  Deste dia feliz às armadilhas de Drosophila que tínhamos que ir soltar dos bambus e esvaziar às seis da manhã durante o quarto ano nas práticas de Ecologia Evolutiva (e que belos charros se fumam nessa idade, ali na madrugada do Jardim, depois de concluído o trabalho!), foi sempre a subir.  Sempre no coração da floresta mágica, onde ficaram guardadas tantas joias bonitas das minhas memórias de estudante.  Clara Pinto Correia