CPC - Há sempre alguém que resiste.

FC - [...] o Flávio Resende, que faria cem anos em 2006? Foi excepcional. E era militantemente optimista, sempre convicto de que se podem melhorar as coisas. Conhecia o Eça de cor e era raro o dia em que não o citava, a propósito do nosso modo caricato de ser, viver e estar. Foi atingido por aquela leva de purgas dos professores universitários que o Salazar fez em 47, e nunca baixou os braços. Muitos dos atingidos tinham, de facto, envolvimentos políticos. Este só tinha liberdade de pensar e dom da palavra, e nunca se levava muito à sério a não ser nas questões morais. Olhe, e tinha uma característica que deve ser mais cultivada: quando havia um artigo que era rejeitado ou uma publicação que era ridícula, ele dizia sempre que, de qualquer forma, era mais trabalho para os outros trabalharem. Ou seja, vivia a ciência como ela deve ser vivida, por acertos e erros.

CPC - O que é que o Professor admira mais nesses homens?

FC - Eram homens cultos. E preocupavam-se com o mal-estar físico dos pobres. Quando o Resende veio para o Jardim Botânico, em 1944, existiam 23 famílias a viver dentro do JB em casas degradadas, em condições miseráveis. Eram técnicos da faculdade que iam trazendo a família. Os jardineiros andavam de roupa remendada, praticamente descalços, de alpergatas rotas, e falavam com ele a medo, de olhos baixos e de chapéu na mão. Ele mandou logo comprar botas para toda a gente. Passados uns meses o encarregado veio queixar-se de que os jardineiros diziam que as botas estavam apertadas. E ele, logo: fantástico! Já são homens! Com melhores condições de vida já eram capazes de exigir, de refilar - isso é um homem. Quando nós vivemos no meio da chafurdice, deixamos de dar por isso.

CPC - Foi um privilégio tê-los conhecido pessoalmente?

FC - Tive a sorte de ter entrado e saído do curso pela mão do Serra e do Resende, e depois pela do Carlos Tavares. [...] O Resende nunca se meteu em política, mas, quando a minha contratação para assistente ficou bloqueada, acabou por ir à PIDE perguntar o que se passava. No meu ficheiro estava uma carta para o jornal "Novidades" a protestar não terem noticiado a recepção que o Papa fez a Nehru, e outra carta que tinha a ver com o meu grupo de católicos progressistas. Não sei o que é que ele fez, mas a situação resolveu-se logo. Fernando Catarino entrevistado por Clara Pinto Correia. 24 Horas, 13 de janeiro de 2007.